Por detrás de um coração de
folhas escondem-se várias histórias, de fracassos e também de glórias de uma
jovem que beija palavras. Por detrás do coração de folhas é fino, esguio e
escuro, semelhante ao concreto duro que prende nossas liberdades. Por detrás de
um coração de folhas há musica, prosa e poesia, há sol e também tardes frias,
há chuva, ventos e ventanias. Por detrás de um coração de folhas há arte,
matemáticas e incógnitas que somente ela entenderia.
O que os olhos não veem o coração
de folhas revela em nuances, no glítter barato recém colado ou na tinta
mesclada por detrás do que se há. Tantos mistérios, tantos segredos, tantas
histórias, o que falta ser decifrado por detrás do coração de folhas?
Ela pintava em silêncio envolta
por seus pensamentos que somente ela compreenderia, até então... De fato ela
nunca havia tentado expor, contar a alguém como era o mundo por detrás de seus
olhos, por dentro de suas asas espessas e branquinhas. Ela apenas as sacudia, e
sorria com o balançar de suas penas, suas plumas. Em silêncio sorria e logo se
entristecia, sorria e logo se entristecia e ninguém no mundo entendia.
A tinta verde escorria sobre a
tela mesclando-se com a tinta preta suavemente. Ela imaginava-se em uma luta
cruel entre o mundo sobrenatural e o natural. Dois batentes, duas bandeiras,
duas vozes, duas cores, dois gritos, dois, um... um silêncio.
No mundo real alguém a chamou,
mas ela estava ocupada. Em suas mãos os pincéis eram a espadas da justiça, eram
a lei. Era a rota de fuga, eram grandes paixões que somente surgem e destroem
todo e qualquer sentido para tanto tumulto.
Ela torcia pelo mocinho, mas qual
deles? Apenas movia sua mão rapidamente, freneticamente, e novamente molhava o
pincel nas tintas recém aberta. Eram novos soldados, novos amores, novos
mártires, novos heróis. Ela apenas pintava, e tudo que se via eram grandes
pinceladas, pequenas pausas de contemplação e mais poesia por entre seus dedos.
Por fim, a guerra cessou... Ambos
venceram! O verde tornara-se preto e o preto verde reluzia; e a sensação de
dever cumprido a possuía. “Pois bem, deixarei secar”, foi o que ela disse
através de seus olhos amendoados. Até
uma nova pergunta surgir, ela apenas sorria feliz, por ter apaziguado algo
importante pregando o amor que ela tanto acreditara.
O que colocarei na tela? Preciso
de algo que como meus olhos, brilhem com o passar da luz e no escuro consiga
permanecer a espera de um novo espectador atento... Colocarei pó de estrela,
está resolvido. Preciso apenas buscar. Ela disse em seus pensamentos.
A menina subiu por morros e
montanhas. E foi mais além, mais além... Apenas andava, e ao olhar para os
lados perdia-se e encontrava-se constantemente. O que era aquilo voando como
pequenos helicópteros? Caiam como uma chuva leve em um dia de verão, ou como a
chuva clássica em uma cena de amor... Folhas? Eram na verdade inflorescências
de uma árvore graciosa à frente.
Ela parou, olhou para cima e como
as pequenas e delicadas inflorescências; apenas girou, girou, girou, girou, e
caiu. Graciosa como uma bailarina solo ou uma criança que sonha alto com seu
tutu cor de rosa. Ela apenas sorriu.
Mais acima ela conseguiu seu tão
precioso pó de estrelas, aquele que as estrelas soltam pelo caminho quando
estão com cócegas ou quando o dia lhe encanta e apressadas precisam se esconder
por detrás das nuvens para não serem confundidas com o sol. Colheu alguns dos
pequenos helicópteros que agora pareciam asas de formiga rainha, mas que na
verdade eram inflorescências de uma frondosa Madeira nova.
Já em casa, ela pegou um pouco de
cola branca escolar e resolveu abençoa-la com a chance irrecusável de afixar em
sua tela mesclada e agora seca o tão precioso pó de estrelas que ela buscou. E
assim fez...
Ao olhar para aquilo ela
compreendeu muito do que havia em si, do que havia no mundo, e do que ainda não
havia. Ela era a única a beijar palavras antes de escrevê-las, ninguém nunca a
compreenderia.
Foi então que teve a última ideia
brilhante de um segundo precioso de seu dia... “Colocarei nesta tela o meu
coração, assim todos um dia poderão decifrar o que por detrás da tela
escondi”. E assim fez... Com as
inflorescências já ressecadas da viagem longa, desenhou um coração. Indo das
extremidades para o centro sem deixar que as asinhas desfigurassem-se. Não era
essa a intenção, pois asas são necessárias.
O que há por detrás de um coração
de folhas? Pensou e logo sorriu.
Sua exaustão e completa bagunça
valeram a pena, estava completo o segundo capítulo.