quinta-feira, 6 de outubro de 2016

E de vez em quando a gente aguenta.


E de vez em quando a gente aguenta ouvir uma música chata, comer uma comida sem sal, não beber água, trocar a lua pelo sol. Ouvir reclamação dos astros, ficar sozinha no natal, cantar sua música chorando, tirar a roupa do varal. Botar uma calça apertada, vestir uma blusa cor de nada e sorrir pra plateia final.
De vez em quando a gente aguenta, o som daquela voz, alarme de manhã, o dia nublado e o azedo da maçã. A aula interminável, o tempo que se perde, os sonhos que se esquece, os gritos no portão. O cheiro de fumaça, vizinha no quintal, catinga de borracha, panela no fogão, o vento te levando, o sono que grudou, o tempo se arrastando... Criticazinha do sr. Doutor.

De vez em quando a gente aguenta, a piada sem graça, os comentários sem nexo, fingir ser quem não somos, lutar contra a fome que não passa. Os olhares dos juízes e a água fria da madrugada, o incontrolável sistema, o professor mal humorado, o chefe mal amado e briguinha besta de namorados.
De vez em quando a gente aguenta, calar e permitir, fingir que não quer rir, ficar ao invés de simplesmente partir... De vez em quando a gente aguenta, amiguinha, a vizinha, os políticos, os irmãos, nossos pais, intrigados, fardos pesados, aliados, indivíduos abusados...

De vez em quando a gente aguenta, mas quase sempre a gente nem ao menos tenta dar ouvidos a tudo isso, entra embaixo de um fino chuvisco de luz e voa, porque quase sempre, nada disso se aguenta.
 
Voe, você não precisa aguentar!
 

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