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sábado, 3 de setembro de 2016

Jogo vazio.


Hey, eu não quero continuar no zero a zero ou no um a um. Não quero continuar a jogar este jogo sem fundamentos, sem raízes, sem função. Não quero por um minuto sequer, continuar errando por livre e espontânea pressão.
NÃO QUERO que me toque, não quero que me olhe desse jeito vulgar; Não quero ouvir sua voz sussurrando palavras sujas na minha alma limpa.
 Eu já tive asas sabia? E a cada vez que eu errava, arrancava delas uma pena... É uma pena, tudo foi mutilado de mim por um motivo fútil, por um momento. Antes, o desconhecido me entretia, me ludibriava, me encantava, Mas meu coração dói, minha alma pranteia, meu espírito rasga suas vestes imundas e grita.
O que você quer de mim? Ela não existe! Ela simplesmente não quer existir.
Não toque-me com suas palavras, com seus olhos, com seu cheiro, suas maneiras loucas de me levar para outro lugar. Não toque-me com suas incredulidades, suas fraquezas, suas bondades, suas malícias. Não toque-me com sua vulgaridade, sua leviandade, sua modernidade, sua falta de fé.
Como ainda não entendeu? Que amor é esse que põe a sua frente tudo que mais maltrata o ser amado? O criador se afastou da criatura, pôs sobre ela nuvens e densas trevas, há pranto e ranger de dentes, há ossos quebrados, alma abatida, tristeza. A filhinha tornou-se desonra, vergonha, imundície.
Deixe-me, deixe-me com as minhas muralhas caídas pelo caminho, com toda metralha, com os corpos fragilizados e estendidos sobre as ruas da minha alma. Deixe-me com a minha solidão e vergonha, com a minha terrível solidão.
Deixe-me ser vendaval, furacão, tempestade, caos. Deixe-me só, deixe-me ser vulcão. Deixe-me arrancar de mim as feridas e amarras desse mundinho vazio. Deixe-me com as minhas asas quebradas, deixe-me com minha falta de luz.
Hey, eu não quero jogar na sua completa bagunça!  
Deixe-me .. ou me refaça!

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Coração de folhas


Por detrás de um coração de folhas escondem-se várias histórias, de fracassos e também de glórias de uma jovem que beija palavras. Por detrás do coração de folhas é fino, esguio e escuro, semelhante ao concreto duro que prende nossas liberdades. Por detrás de um coração de folhas há musica, prosa e poesia, há sol e também tardes frias, há chuva, ventos e ventanias. Por detrás de um coração de folhas há arte, matemáticas e incógnitas que somente ela entenderia.

O que os olhos não veem o coração de folhas revela em nuances, no glítter barato recém colado ou na tinta mesclada por detrás do que se há. Tantos mistérios, tantos segredos, tantas histórias, o que falta ser decifrado por detrás do coração de folhas?

Ela pintava em silêncio envolta por seus pensamentos que somente ela compreenderia, até então... De fato ela nunca havia tentado expor, contar a alguém como era o mundo por detrás de seus olhos, por dentro de suas asas espessas e branquinhas. Ela apenas as sacudia, e sorria com o balançar de suas penas, suas plumas. Em silêncio sorria e logo se entristecia, sorria e logo se entristecia e ninguém no mundo entendia.

A tinta verde escorria sobre a tela mesclando-se com a tinta preta suavemente. Ela imaginava-se em uma luta cruel entre o mundo sobrenatural e o natural. Dois batentes, duas bandeiras, duas vozes, duas cores, dois gritos, dois, um... um silêncio.

No mundo real alguém a chamou, mas ela estava ocupada. Em suas mãos os pincéis eram a espadas da justiça, eram a lei. Era a rota de fuga, eram grandes paixões que somente surgem e destroem todo e qualquer sentido para tanto tumulto.

Ela torcia pelo mocinho, mas qual deles? Apenas movia sua mão rapidamente, freneticamente, e novamente molhava o pincel nas tintas recém aberta. Eram novos soldados, novos amores, novos mártires, novos heróis. Ela apenas pintava, e tudo que se via eram grandes pinceladas, pequenas pausas de contemplação e mais poesia por entre seus dedos.

Por fim, a guerra cessou... Ambos venceram! O verde tornara-se preto e o preto verde reluzia; e a sensação de dever cumprido a possuía. “Pois bem, deixarei secar”, foi o que ela disse através de seus olhos amendoados.  Até uma nova pergunta surgir, ela apenas sorria feliz, por ter apaziguado algo importante pregando o amor que ela tanto acreditara.

O que colocarei na tela? Preciso de algo que como meus olhos, brilhem com o passar da luz e no escuro consiga permanecer a espera de um novo espectador atento... Colocarei pó de estrela, está resolvido. Preciso apenas buscar. Ela disse em seus pensamentos.

A menina subiu por morros e montanhas. E foi mais além, mais além... Apenas andava, e ao olhar para os lados perdia-se e encontrava-se constantemente. O que era aquilo voando como pequenos helicópteros? Caiam como uma chuva leve em um dia de verão, ou como a chuva clássica em uma cena de amor... Folhas? Eram na verdade inflorescências de uma árvore graciosa à frente.

Ela parou, olhou para cima e como as pequenas e delicadas inflorescências; apenas girou, girou, girou, girou, e caiu. Graciosa como uma bailarina solo ou uma criança que sonha alto com seu tutu cor de rosa. Ela apenas sorriu.

Mais acima ela conseguiu seu tão precioso pó de estrelas, aquele que as estrelas soltam pelo caminho quando estão com cócegas ou quando o dia lhe encanta e apressadas precisam se esconder por detrás das nuvens para não serem confundidas com o sol. Colheu alguns dos pequenos helicópteros que agora pareciam asas de formiga rainha, mas que na verdade eram inflorescências de uma frondosa Madeira nova.

Já em casa, ela pegou um pouco de cola branca escolar e resolveu abençoa-la com a chance irrecusável de afixar em sua tela mesclada e agora seca o tão precioso pó de estrelas que ela buscou. E assim fez...

Ao olhar para aquilo ela compreendeu muito do que havia em si, do que havia no mundo, e do que ainda não havia. Ela era a única a beijar palavras antes de escrevê-las, ninguém nunca a compreenderia.

Foi então que teve a última ideia brilhante de um segundo precioso de seu dia... “Colocarei nesta tela o meu coração, assim todos um dia poderão decifrar o que por detrás da tela escondi”.  E assim fez... Com as inflorescências já ressecadas da viagem longa, desenhou um coração. Indo das extremidades para o centro sem deixar que as asinhas desfigurassem-se. Não era essa a intenção, pois asas são necessárias.

O que há por detrás de um coração de folhas? Pensou e logo sorriu.
 

Sua exaustão e completa bagunça valeram a pena, estava completo o segundo capítulo.