domingo, 25 de setembro de 2016

O último dia...






Se eu soubesse que esse seria o último dia ao lado dele, o observaria com mais atenção. Degustaria vagarosamente o momento, como quem sorve o mel recém tirado dos favos.

Se eu soubesse que esse seria o último dia ao lado dele, reservaria metade do meu cérebro e todo o meu coração, para gravar cada mania, cada som, cada cheiro que viesse dele.

Se eu soubesse que esse seria o último dia ao lado dele, o diria o quanto amo o seu sorriso, mil vezes seguidas. O beijaria lentamente em silêncio, como quem trapaceia o tempo com a doçura da alma.

Se eu soubesse que esse seria realmente o nosso último dia, acordaria no primeiro minuto do dia e o ligaria somente para ouvi-lo falar movido pelo sono, pelo sonho, pelo cansaço.

Se eu soubesse que esse seria o nosso último dia juntinhos, me uniria a sua alma, tatuaria meu nome em seu coração e me eternizaria como uma canção.

Se eu soubesse que esse seria nosso último dia, o olharia dentro dos olhos, desejando ser para sempre a menina de seus olhos, sua menina.

E quando eu soubesse que esse realmente seria nosso último dia e que o fim do dia havia chegado, fecharia os olhos com o frescor da menta, junto a lua. Repousaria em seus braços, dentro de seu abraço... Certa de que este dia estaria marcado com um X, para sempre em nossa história, que tudo valeu a pena. E tristemente partiria. Viraria poesia.


sábado, 3 de setembro de 2016

Jogo vazio.


Hey, eu não quero continuar no zero a zero ou no um a um. Não quero continuar a jogar este jogo sem fundamentos, sem raízes, sem função. Não quero por um minuto sequer, continuar errando por livre e espontânea pressão.
NÃO QUERO que me toque, não quero que me olhe desse jeito vulgar; Não quero ouvir sua voz sussurrando palavras sujas na minha alma limpa.
 Eu já tive asas sabia? E a cada vez que eu errava, arrancava delas uma pena... É uma pena, tudo foi mutilado de mim por um motivo fútil, por um momento. Antes, o desconhecido me entretia, me ludibriava, me encantava, Mas meu coração dói, minha alma pranteia, meu espírito rasga suas vestes imundas e grita.
O que você quer de mim? Ela não existe! Ela simplesmente não quer existir.
Não toque-me com suas palavras, com seus olhos, com seu cheiro, suas maneiras loucas de me levar para outro lugar. Não toque-me com suas incredulidades, suas fraquezas, suas bondades, suas malícias. Não toque-me com sua vulgaridade, sua leviandade, sua modernidade, sua falta de fé.
Como ainda não entendeu? Que amor é esse que põe a sua frente tudo que mais maltrata o ser amado? O criador se afastou da criatura, pôs sobre ela nuvens e densas trevas, há pranto e ranger de dentes, há ossos quebrados, alma abatida, tristeza. A filhinha tornou-se desonra, vergonha, imundície.
Deixe-me, deixe-me com as minhas muralhas caídas pelo caminho, com toda metralha, com os corpos fragilizados e estendidos sobre as ruas da minha alma. Deixe-me com a minha solidão e vergonha, com a minha terrível solidão.
Deixe-me ser vendaval, furacão, tempestade, caos. Deixe-me só, deixe-me ser vulcão. Deixe-me arrancar de mim as feridas e amarras desse mundinho vazio. Deixe-me com as minhas asas quebradas, deixe-me com minha falta de luz.
Hey, eu não quero jogar na sua completa bagunça!  
Deixe-me .. ou me refaça!

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Falsas promessas.





Há tantas falsas promessas por detrás de um sorriso

Há tantas falsas promessas por detrás de um sorriso
Há tantas falsas promessas por detrás de um sorriso

Dizia um moleque de rua enquanto chutava uma bolinha de papel.. 

Há tantas falsas promessas por detrás de um abraço
Há tantas falsas promessas por detrás de um abraço 
Há tantas falsas promessas por detrás de um abraço

Dizia uma menina na calçada, enquanto agarrava a sua boneca de pano...

Há tantas falsas promessas por detrás de um beijo
Há tantas falsas promessas por detrás de um beijo
Há tantas falsas promessas por detrás de um beijo

Dizia um senhor, sentado numa mureta, cansado das muitas andanças...

Há tantas falsas promessas por detrás de um carinho
Há tantas falsas promessas por detrás de um carinho
Há tantas falsas promessas por detrás de um carinho

Dizia uma velha senhora, enquanto varria a casa...

Há tantas falsas promessas por detrás de uma visita
Há tantas falsas promessas por detrás de uma visita
Há tantas falsas promessas por detrás de uma visita

Dizia o pai da moça, enquanto fechava as portas...

Há tantas falsas promessas por detrás de um presente
Há tantas falsas promessas por detrás de um presente
Há tantas falsas promessas por detrás de um presente

Dizia a moça bonita, enquanto respondia a propostas...


Há tantas falsas promessas por detrás de uma foto
Há tantas falsas promessas por detrás de uma foto
Há tantas falsas promessas por detrás de uma foto

Dizia o pobre na saída da comitiva do "Doutor"...

Há tantas falsas promessas...

Que nessa eleição as falsas promessas não te conquistem.
E que em suas decisões o bom senso e a sabedoria sejam seu escudo.


segunda-feira, 4 de julho de 2016

Coração de folhas


Por detrás de um coração de folhas escondem-se várias histórias, de fracassos e também de glórias de uma jovem que beija palavras. Por detrás do coração de folhas é fino, esguio e escuro, semelhante ao concreto duro que prende nossas liberdades. Por detrás de um coração de folhas há musica, prosa e poesia, há sol e também tardes frias, há chuva, ventos e ventanias. Por detrás de um coração de folhas há arte, matemáticas e incógnitas que somente ela entenderia.

O que os olhos não veem o coração de folhas revela em nuances, no glítter barato recém colado ou na tinta mesclada por detrás do que se há. Tantos mistérios, tantos segredos, tantas histórias, o que falta ser decifrado por detrás do coração de folhas?

Ela pintava em silêncio envolta por seus pensamentos que somente ela compreenderia, até então... De fato ela nunca havia tentado expor, contar a alguém como era o mundo por detrás de seus olhos, por dentro de suas asas espessas e branquinhas. Ela apenas as sacudia, e sorria com o balançar de suas penas, suas plumas. Em silêncio sorria e logo se entristecia, sorria e logo se entristecia e ninguém no mundo entendia.

A tinta verde escorria sobre a tela mesclando-se com a tinta preta suavemente. Ela imaginava-se em uma luta cruel entre o mundo sobrenatural e o natural. Dois batentes, duas bandeiras, duas vozes, duas cores, dois gritos, dois, um... um silêncio.

No mundo real alguém a chamou, mas ela estava ocupada. Em suas mãos os pincéis eram a espadas da justiça, eram a lei. Era a rota de fuga, eram grandes paixões que somente surgem e destroem todo e qualquer sentido para tanto tumulto.

Ela torcia pelo mocinho, mas qual deles? Apenas movia sua mão rapidamente, freneticamente, e novamente molhava o pincel nas tintas recém aberta. Eram novos soldados, novos amores, novos mártires, novos heróis. Ela apenas pintava, e tudo que se via eram grandes pinceladas, pequenas pausas de contemplação e mais poesia por entre seus dedos.

Por fim, a guerra cessou... Ambos venceram! O verde tornara-se preto e o preto verde reluzia; e a sensação de dever cumprido a possuía. “Pois bem, deixarei secar”, foi o que ela disse através de seus olhos amendoados.  Até uma nova pergunta surgir, ela apenas sorria feliz, por ter apaziguado algo importante pregando o amor que ela tanto acreditara.

O que colocarei na tela? Preciso de algo que como meus olhos, brilhem com o passar da luz e no escuro consiga permanecer a espera de um novo espectador atento... Colocarei pó de estrela, está resolvido. Preciso apenas buscar. Ela disse em seus pensamentos.

A menina subiu por morros e montanhas. E foi mais além, mais além... Apenas andava, e ao olhar para os lados perdia-se e encontrava-se constantemente. O que era aquilo voando como pequenos helicópteros? Caiam como uma chuva leve em um dia de verão, ou como a chuva clássica em uma cena de amor... Folhas? Eram na verdade inflorescências de uma árvore graciosa à frente.

Ela parou, olhou para cima e como as pequenas e delicadas inflorescências; apenas girou, girou, girou, girou, e caiu. Graciosa como uma bailarina solo ou uma criança que sonha alto com seu tutu cor de rosa. Ela apenas sorriu.

Mais acima ela conseguiu seu tão precioso pó de estrelas, aquele que as estrelas soltam pelo caminho quando estão com cócegas ou quando o dia lhe encanta e apressadas precisam se esconder por detrás das nuvens para não serem confundidas com o sol. Colheu alguns dos pequenos helicópteros que agora pareciam asas de formiga rainha, mas que na verdade eram inflorescências de uma frondosa Madeira nova.

Já em casa, ela pegou um pouco de cola branca escolar e resolveu abençoa-la com a chance irrecusável de afixar em sua tela mesclada e agora seca o tão precioso pó de estrelas que ela buscou. E assim fez...

Ao olhar para aquilo ela compreendeu muito do que havia em si, do que havia no mundo, e do que ainda não havia. Ela era a única a beijar palavras antes de escrevê-las, ninguém nunca a compreenderia.

Foi então que teve a última ideia brilhante de um segundo precioso de seu dia... “Colocarei nesta tela o meu coração, assim todos um dia poderão decifrar o que por detrás da tela escondi”.  E assim fez... Com as inflorescências já ressecadas da viagem longa, desenhou um coração. Indo das extremidades para o centro sem deixar que as asinhas desfigurassem-se. Não era essa a intenção, pois asas são necessárias.

O que há por detrás de um coração de folhas? Pensou e logo sorriu.
 

Sua exaustão e completa bagunça valeram a pena, estava completo o segundo capítulo.

 

 

Borboleta azul


Quem me dera eu fosse azul

Quem me dera voar pelo céu como uma flor dançarina

Como uma menina com um laço de fita

Como uma princesinha em meio a adocicadas roseiras

 
Quem me dera...

 
Quem me dera eu fosse poesia nos lábios carnudos e rosados da menina que da janela espia

Quem me dera eu fosse o suspiro apaixonado do garoto sentado no fim da rua

Quem me dera eu provasse da doçura do néctar de uma só flor

Quem me dera ser a sinceridade do coração do cantor

 
Quem me dera...

 
Quem me dera encantar as doces velhinhas silenciosas

sentadas em desconfortáveis cadeiras nas áreas de suas casas vazias.

Quem me dera eu fosse raio de sol pela manhã, ao tocar na pele fininha de um novo bebê

Quem me dera eu fosse azul... Quem me dera eu fosse azul...

Quem me dera eu fosse uma flor dançarina, borboleta azul.

 

Quem me dera...

 

Palavras


 
 
Há algumas palavras no dicionário que não fazem sentido em existir, não fariam falta alguma se por um dia alguém resolvesse apenas retira-las da história. Há palavras que foram criadas na hora da raiva, do medo, da angústia, da incompreensão e ficaram existindo por puro descaso da sensibilidade humana.

Há palavras que mesmo pequenininhas, machucam muito. Palavras que nos podam, nos resumem ao pó, nos oprimem e nos obrigam a viver sonhos alheios. Há palavras que nos prendem, nos desejam o mal, nos denigrem e nos acompanham por anos a fio sem que haja um controle sobre elas.

Há palavras feias, palavras burras, palavras estranhas, palavrões de uma sílaba só. São apenas palavras ou são pessoas vestidas de palavras? Quantas vezes nos escondemos debaixo de muitas delas e não nos damos conta que de tanto se esconder somos suprimidos e deixamos de realmente existir...?

“Ah, mas são só meras palavras, quando eu quiser eu paro, quando quiser não as falo.”

Quantas boas palavras você vai deixar de falar pra se parecer com o que você não é? Quantas boas palavras você vai abandonar no desuso pra parecer descolada, divertida ou popular?
Palavras do “A” ao “Z” existem para serem bem utilizadas, servirem de comunicação, de interação. São armas poderosíssimas. Repensa vai, não por mim, não por você (não somente você), mas por nós, por nossa sociedade, por nossas amizades, pela criança de rua, pelo cachorro da esquina, pelo moço da limpeza, pela dona da cantina, pelo advogado, pelo médico, pelo cantor, por seus familiares, líderes, por dona Maria, por teu avô, por tua avó, por todos os envolvidos direta e indiretamente com o que acontece contigo, repensa.