E de vez em quando a gente
aguenta ouvir uma música chata, comer uma comida sem sal, não beber água,
trocar a lua pelo sol. Ouvir reclamação dos astros, ficar sozinha no natal,
cantar sua música chorando, tirar a roupa do varal. Botar uma calça apertada, vestir
uma blusa cor de nada e sorrir pra plateia final.
De vez em quando a gente aguenta,
o som daquela voz, alarme de manhã, o dia nublado e o azedo da maçã. A aula
interminável, o tempo que se perde, os sonhos que se esquece, os gritos no
portão. O cheiro de fumaça, vizinha no quintal, catinga de borracha, panela no
fogão, o vento te levando, o sono que grudou, o tempo se arrastando... Criticazinha
do sr. Doutor.
De vez em quando a gente aguenta,
a piada sem graça, os comentários sem nexo, fingir ser quem não somos, lutar contra a fome que não passa. Os olhares
dos juízes e a água fria da madrugada, o incontrolável sistema, o professor mal
humorado, o chefe mal amado e briguinha besta de namorados.
De vez em quando a gente aguenta,
mas quase sempre a gente nem ao menos tenta dar ouvidos a tudo isso, entra
embaixo de um fino chuvisco de luz e voa, porque quase sempre, nada disso se
aguenta.
Voe, você não precisa aguentar!










